Charlles, Ione, Isauro, Júlio, Lorene, Margarida e Victória já aparecem no páreo para 2024 (Fotos: Jornal Pharol)

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Localizada na Zona da Mata Mineira, Juiz de Fora é rota de meio caminho entre grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Sendo Minas Gerais o estado que melhor representa o recorte nacional, tendo fronteiras com diversos outros estados, o escopo mineiro garante uma pluralidade de perspectivas e misturas culturais que fazem de Minas o recorte perfeito para analistas observarem o termômetro das eleições nacionais. Essa verdade pode ser confirmada com o fato de que todos os candidatos à Presidência que vestiram a faixa na Nova República também venceram as eleições em Minas, o que nem sempre é a realidade de outros estados e com tanta consistência ao longo do tempo.

O que apresento aqui, portanto, é a tese de que Juiz de Fora, por ser uma cidade de importante relevância, atravessada pelo mesmo contexto que o estado mineiro de um modo geral, acaba se tornando um pequeno laboratório para aqueles com olhares atentos ao cenário político e que não gostam de ser pegos de surpresa. Afinal, ao menos nas últimas duas décadas, as eleições juiz-foranas têm apontado relevantes fatos que acabam se repetindo no cenário nacional.

Para começar, como é do conhecimento de todos que não se fingem de desentendidos, no início do novo milênio, o PT chegou ao poder e institucionalizou as más práticas da política de interior, como rachadinhas e propinas em troca de facilitação dos processos públicos para agentes privados, para nos atermos ao mínimo. O sentimento de impunidade da classe política era real em boa parte da população e entre os próprios políticos em todas as esferas da federação.

Mas um primeiro vento de mudança apareceu em 2008, quando a operação Pasárgada prendeu o então prefeito de JF, Carlos Alberto Bejani, por envolvimento em liberação irregular de verbas do Fundo de Participação dos Municípios. Algo que o Brasil demoraria um pouco, mas veria acontecer 10 anos depois, quando o atual Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro em 2018 como resultado da operação Lava Jato.

O cansaço extremo do povo de Juiz de Fora com essa política de interesses e a decepção com aquele que era conhecido como ‘prefeito do povo’, no caso, Bejani, abriu espaço para a manutenção da política dos conhecidos, que garantiu o retorno à prefeitura para Custódio de Mattos no mesmo ano em que Bejani havia sido preso. Algo que o Brasil vivenciaria em 2018 com a eleição de Bolsonaro que, em meio à tanta bagunça deixada pelo PT, consegue facilmente se vender como o outsider, por mais que já acumulasse décadas como participante do sistema.

Indo para uma análise micro, para aqueles que não têm memória de brasileiro, em 2008, contexto da prisão de Bejani em Juiz de Fora, o governo PT já estava sofrendo desgastes de toda sorte, sendo bombardeado pela mídia pelos escândalos de corrupção e práticas bastante questionáveis no uso da máquina pública. Entretanto, nas eleições seguintes, 2010, Dilma Rousseff seria eleita presidente pela primeira vez, dando ao PT a continuidade de governo que, naquele momento, conseguiu vender bem a imagem de ‘primeira mulher presidente do Brasil’. Uma mudança que, de acordo com o PT, até então, o Brasil não tinha vivenciado em qualquer momento de sua história, ter uma mulher à frente das decisões políticas do país. Enquanto isso, a Lei Áurea seguia e segue assinada pela Princesa Isabel.

Entretanto, o discurso do ‘novo’, por Dilma ser uma mulher, logo caiu por terra com a manutenção do modus operandi petista, somado às trapalhadas da nova cara do partido. Além disso, o caos no cenário nacional foi fator determinante para o aumento do clamor em todo o território nacional pela ‘nova política’ real, pela mudança, pelas oportunidades de que alguém diferente se colocasse no contexto. Mesmo que esse diferente fosse alguém bem conhecido, mas não fosse ‘aqueles que estão lá’ – dizia o populacho. Nessa conjuntura, em 2012, o então deputado estadual Bruno Siqueira concorre à cadeira da prefeitura de JF, atendendo, no nível regional, o anseio do povo brasileiro como nação.

Enquanto isso, no contexto geral, dois anos após a vitória do Tesouro (analogia ao personagem Kiko da Turma do Chaves, como Bruno Siqueira ficou conhecido), Dilma Rousseff se reelegeu com dificuldade em segundo turno, tendo a eleição mais acirrada da história até aquele ponto. Aécio Neves, o candidato derrotado de 2014, por mais figura carimbada que fosse na política brasileira, contra Dilma, naquele momento e conjuntura, conseguiu se apresentar como ‘o novo’, ‘a mudança na política’, emplacando o tema ‘é pra mudar o Brasil’ em sua campanha eleitoral que, por muito pouco, não promove a retirada do PT do poder. O tema da campanha de Aécio pode não ter funcionado efetivamente para ele, porém reverberou até as eleições de 2018, retratada no jingle de Bolsonaro ‘muda Brasil, muda Brasil, muda de verdade’.

Para endossar ainda mais a minha tese, entre 2014 e 2018, Juiz de Fora viveu a eleição mais estranha da história da cidade, deixando analistas locais atônitos ao verem que Bruno Siqueira, com toda a rejeição que acumulava, garantir a permanência na cadeira da prefeitura em 2016, mesmo com os rumores de bastidores de que o acordo entre o MDB e o PSDB de que ele abandonaria o mandato para dar espaço ao PSDB na cidade. Assim, se tornaria o primeiro prefeito a deixar o cargo no meio do mandato para disputar uma nova eleição legislativa, entregando a administração de Juiz de Fora para o médico Antônio Almas, vice-prefeito tucano. Figura completamente inexpressiva até aquele momento e que segue na mesma posição enquanto você segue sua leitura por aqui. Todavia, Bruno foi reeleito em nome de uma ‘união contra o PT’, uma espécie de ‘qualquer candidato vale, menos a Margarida que é petista’.

Assim, Bruno se reelege e, ao abandonar o cargo no meio do mandato para disputar as eleições de 2018, leva ao ápice o clima de cansaço dos cidadãos com a política local que apenas aceitaram a realidade e passaram quase dois anos sem saberem quem era o seu prefeito. Só sabiam que não era o Bruno.

E, em 2020, a cidade assiste, atônita, no auge da popularidade das forças bolsonaristas, que já chamava a tudo e a todos de traidores ou comunistas (quando não traidores-comunistas), a vitória da petista Margarida Salomão, após três tentativas frustradas, enfim, veio. O resultado das eleições 2022… Bom, já sabemos qual foi o resultado. Exceto aqueles que questionam as urnas, mas não permitem qualquer tipo de questionamento aos seus políticos de estimação.

O ano atual é 2024. Nesse momento, em Juiz de Fora, as forças tradicionais, nomes que muitos já davam como esquecidos ou ultrapassados na política, voltam a aparecer com força total, diante do contexto de uma nova onda de cansaço mental que a população se encontra, ao viverem o drama brasileiro de ficar no meio da disputa entre defensores de bandidos e simpatizantes da paranoia como estilo de vida nas alas petistas e bolsonaristas respectivamente.

MDB recebe filiação de Tarcísio Delgado e Júlio Delgado (Fonte: RCWTV – Agência Vesúvio)

Prova disso é que, para além da já confirmada candidata à reeleição, Margarida Salomão (PT), o ex-deputado estadual Isauro Calais (PSC) e do ex-deputado federal Charles Evangelista (PSL) que também já confirmaram participar do pleito deste ano, no último dia 02 de abril, o ex-deputado federal Júlio Delgado foi filiado ao MDB, anunciando, durante evento, que também estará participando da disputa pela prefeitura de Juiz de Fora, se colocando como pré-candidato e mexendo com bases daqueles que muitos diziam que não tinham mais espaço na política. Alguns, inclusive, juravam que esses não tinham espaço ‘de jeito algum’.

Mas, como diz a maioria dos moradores da cidade, ‘na política, não existem cachorros mortos’. E com esse pequeno panorama, juntamente com essa reflexão popular, deixo aqui o meu convite para que você não desgrude seus olhos da Terrinha. Juiz de Fora pode se mostrar, mais uma vez, ser um escopo perfeito do que é o Brasil como um todo. Outubro o dirá!

Fontes: 
https://www.rcwtv.com.br/noticia/mdb-recebe-filiacao-de-tarcisio-delgado-e-julio-delgado
https://www.pjf.mg.gov.br/institucional/cidade/prefeitos.php
https://jornalopharol.com.br/2023/07/disputa-pela-prefeitura-de-juiz-de-fora-comeca-com-sete-nomes-no-pareo/