Meus pais tinham a prioridade de que meu irmão e eu estudássemos e que tivéssemos sempre o melhor possível em matéria de educação. O lema deles era de que o ensino era algo que iriamos herdar e que ninguém poderia tomar para si. Pois bem, quando eu era criança, ali por volta da quarta ou quinta série, quando não existia ainda o famigerado “nono ano”, havia no meu livro de Geografia uma lição inteira sobre o IDH (índice de desenvolvimento humano). Ainda me lembro dos gráficos que deveríamos analisar, onde indicadores como educação e economia influenciavam diretamente no resultado. No mesmo capítulo aprendemos sobre renda per capta e outas formas de aferir o desenvolvimento de um país.

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          Eu devia ter entre 11 e 12 anos, e foi, naquele momento que eu havia percebido que, para os maus políticos, bastava deixar de investir em educação para que uma sociedade começasse a colapsar. E ele, o mau gestor, só teria benefícios com isso, pois quanto mais ignorante fosse a população, mais fácil seria de manipular a narrativa e conquistar mais votos. É bem verdade que a população é tratada como uma criação de porcos para abate. Os suínos ficam extremamente felizes quando o fazendeiro enche o cocho, sem perceber que a outra mão segura a faca.

          Que analogia infeliz podemos fazer com a realidade brasileira que recai atualmente sobre o Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Devaixo de escândalos de vazamento foi possível perceber que a prova mais importante para um jovem ingressar na Universidade sempre fora tratada com desleixo. Em 2009 eu era uma estudante que faria o ENEM, e me lembro perfeitamente do rosto do Haddad na TV, na época ministro da educação, pedindo desculpas pelo vazamento da prova, que seria inevitavelmente adiada. Ou seja, não a primeira vez que o exame tem ao seu redor escândalos de vazamento e fraude.

          Em 2017 a jornalista Renata Cafardo descreve um verdadeiro esquema de vazamento do ENEM de 2009. E descreve como já naquela época, igual a hoje, o Prêmio CAAPES era usado como uma forma de “testar as questões”. De modo que o ENEM do ano seguinte teria reproduções exatas de questões do CAPES do ano anterior. O que hoje sabemos ser verdade e um “esquema” antigo.

          Mas a anedota revela ainda mais. Ela nos mostra como os porcos ficam gratos quando o fazendeiro faz um afago, afinal, já nasceram porcos e não possuem o condão de serem fazendeiros. Na verdade, se o fossem, também serviriam a comida munidos de uma faca na mão oposta. Entenda, caro leitor, que não existe mudança de Brasil que não passa pela valorização da educação de base.