Se alguém dissesse, anos atrás, que 2025 seria lembrado como um grande circo político, talvez soasse como exagero retórico. Hoje, soa apenas como constatação. O problema é que, em meio ao espetáculo grotesco, o público não apenas permaneceu sentado. Aplaudiu, escolheu lados e passou a brigar entre si enquanto o picadeiro pegava fogo.
O Brasil entrou em 2025 com problemas estruturais graves. Economia fragilizada, insegurança jurídica, instituições tensionadas e uma crise profunda de confiança. Saiu do ano com os mesmos problemas, agora agravados por algo ainda mais corrosivo: a completa banalização do absurdo político.

O escândalo envolvendo o INSS é um exemplo emblemático. Irregularidades bilionárias, denúncias de má gestão, falhas graves de controle e prejuízos diretos à população mais vulnerável foram expostos sem que isso provocasse comoção proporcional. O debate rapidamente deixou de ser sobre responsabilidade administrativa e passou a ser sobre defesa ou ataque político. Para muitos, não importava o rombo ou suas consequências, mas apenas quem seria beneficiado ou prejudicado na disputa ideológica.
O mesmo padrão se repetiu diante dos gastos do Governo Federal mantidos sob sigilo. Recursos públicos utilizados sem transparência, em desacordo com o discurso de abertura e controle, deveriam ser motivo de indignação ampla e transversal. No entanto, o tema foi relativizado, minimizado ou simplesmente ignorado por aqueles que antes tratavam a transparência como valor inegociável. O princípio mudou conforme o governante, não conforme o fato.

Outro episódio revelador foi o escândalo do Banco Master. Relações nebulosas entre poder político e instituições financeiras, decisões questionáveis e impactos potenciais no sistema econômico foram tratados com naturalidade assustadora. Em vez de cobranças firmes por explicações claras, o que se viu foi a tentativa de enquadrar o caso em narrativas convenientes, diluindo sua gravidade e desviando o foco daquilo que realmente importava: a responsabilidade de quem decide e administra.
Escândalos se sucederam, decisões contraditórias se acumularam, e versões oficiais mudaram sem qualquer constrangimento. Ainda assim, nada disso gerou a indignação proporcional que se esperaria de uma sociedade minimamente vigilante.
Não porque faltaram motivos, mas porque faltou disposição para pensar.
A população, em larga medida, deixou de reagir com base em princípios para reagir com base em pertencimento. Quando um erro parte do próprio campo ideológico, surgem justificativas técnicas, contextuais ou morais. Quando o mesmo erro parte do campo oposto, vira prova definitiva de corrupção, autoritarismo ou incompetência. O critério já não é mais “isso é certo?” ou “isso é aceitável?”, mas sim “quem fez?” e “contra quem foi?”.

Em 2025, discursos vazios substituíram políticas públicas. Slogans tomaram o lugar de dados. Propostas complexas foram reduzidas a frases de efeito enquanto problemas concretos, como inflação, insegurança e serviços públicos precários, seguiam sem solução. O emocional se sobrepôs à razão, e o debate público virou um exercício de indignação seletiva.
A crítica passou a ser vista como traição, e a defesa cega como virtude. Questionar incoerências virou sinônimo de fortalecer o inimigo. Nesse ambiente, o cidadão médio não se sente representado, mas também não se sente responsável. Reclama nas redes, compartilha ironias, escolhe um lado e segue a vida como se política fosse apenas entretenimento ruim.
Talvez o aspecto mais preocupante não seja o comportamento dos atores políticos, historicamente previsível, mas a anestesia coletiva. O Brasil não está apenas polarizado. Está exausto. E o cansaço tem produzido apatia seletiva. Indigna-se quando convém, silencia quando incomoda, racionaliza quando o absurdo vem do lado considerado correto.
O circo só continua porque há plateia. Enquanto o ódio ideológico for mais mobilizador do que a consciência cívica, enquanto a identidade política falar mais alto que valores universais como responsabilidade, transparência e justiça, 2025 não será um ponto fora da curva. Será apenas mais um ensaio geral para o próximo espetáculo.

A pergunta que fica não é sobre quem está no poder, mas sobre quem ainda está disposto a exigir algo melhor. Porque um país que se acostuma ao ridículo deixa de perceber quando o ridículo se torna regra.
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