“Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não”
A Casa, Vinícius de Moraes

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Leitor, você já parou para pensar por que as casas brasileiras são tão feias? Fachadas sem criatividade, muros altos, fechadas e, até certo ponto, hostis. Se observarmos outros países, as residências, muitas vezes, têm muros baixos ou sequer os possuem. Mas aqui é o contrário, pelo menos nas grandes cidades.

Ressalva/Disclaimer: sim, há regiões onde isso não se aplica, como cidades do Sul, da região amazônica, condomínios fechados e áreas interiores. Poderíamos citar também as favelas, mas a explicação ali é um pouco diferente: falta de espaço.

Considerando que moramos em um país tropical, nossa arquitetura deveria ser bem mais adequada ao nosso clima. Uma construção adaptada à tropicalidade contaria com muitas aberturas, áreas cobertas por telhados amplos e vegetação abundante. Deveríamos focar em melhorar a ventilação, a proteção contra a chuva e o sol, mas estamos cada vez mais preocupados com a segurança. O medo tem dominado a construção vernacular brasileira, fazendo com que as casas fiquem cada vez mais fechadas, escuras e quentes para os residentes. “Vernacular” refere-se àquilo que é característico da cultura ou de um país, e, na arquitetura, indica a construção típica realizada pela população.

Essa tendência é influenciada pela crescente violência. Os brasileiros têm transformado suas próprias casas em uma espécie de prisão, cujo objetivo não é evitar a fuga, mas impedir a entrada. Essa mudança não surgiu de repente; a residência-prisão brasileira foi se desenvolvendo à medida que os tipos de crimes variaram e se intensificaram ao longo das décadas. Inicialmente, passaram a ser construídos muros e gradis mais altos, com cerca de dois metros de altura. Depois, com a implementação de proteções como cacos de vidro – comuns até meados da década de 1990 – pontas de ferro e ponteiras. Aliás, as ponteiras em formato de lança passaram a fazer parte do design das grades. As janelas também passaram a ser protegidas por grades, com o objetivo de dificultar ao máximo a entrada e garantir a segurança dos moradores.

No início do século XXI, cercas elétricas tornaram-se comuns. Há relatos de acidentes causados por versões caseiras dessas cercas. Posteriormente, a moda passou a ser as concertinas enroladas, que foram criticadas pelas lesões que provocam em quem tenta ultrapassá-las. Cachorros, antes apenas de estimação, passaram a ser utilizados também como cães de guarda. Os muros, cada vez mais fechados e protegidos no topo, frequentemente exibem placas avisando sobre a presença de animais agressivos. Alguns moradores preferem que o invasor descubra isso por si mesmo, caso tente adentrar o imóvel. Com a tecnologia cada vez mais acessível, câmeras – inclusive com visão noturna – intercomunicadores, sensores de movimento e alarmes também passaram a compor esse cenário.

Essa é a culminância da prisão self-made e o fundo do poço para as nossas cidades. Fala-se muito em valorizar a cidade e cuidar do ambiente urbano, mas quem pode sentir prazer ou atribuir valor a uma paisagem, em sua maioria, fechada e feita para afastar qualquer curioso? Como estimular as pessoas a serem mais ativas em associações de bairros ou a conversarem entre si, se o ambiente estimula o isolamento? A violência tem deteriorado não apenas a arquitetura brasileira, mas também a nossa civilidade.