“Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Quem entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!”
— Cláudio Manuel da Costa (1768)

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Queria escrever um texto motivador, inspirado no famoso discurso de posse de Tancredo Neves como governador, no Palácio da Liberdade. A ideia era trazer suas palavras de 1983 para 2025, mas, ao revisitar o discurso, a direção mudou.

O discurso inicia com uma frase forte, digna de perpetuar-se nos anais da história: “Mineiros, o primeiro compromisso de Minas é com a Liberdade.” Entoada diante de milhares, no Palácio da Liberdade, na emblemática Praça da Liberdade, essa declaração é acalentadora. Tancredo fala diretamente aos mineiros, orgulhosos de sua terra e de sua história. Há uma aura quase mística em torno da palavra liberdade — um eco do passado que ressoa na alma de quem vive sob o manto das montanhas de Minas. “Liberdade é o outro nome de Minas”, dizia ele.

Mas que liberdade é essa? Apenas um lema? Um chamamento que provoca emoção, mas carece de ação? Se esse discurso fosse atribuído ao primeiro quarto do século XXI, ninguém contestaria. Os problemas discutidos — as condições econômicas de Minas Gerais, a participação das mulheres na política, crises econômicas estadual e nacional, desemprego, endividamento da agropecuária, desindustrialização e altos encargos financeiros sobre o comércio — permanecem praticamente inalterados.

O que foi feito? Algum mineiro, ou grupo de mineiros, ergueu-se para enfrentar os desafios e promover mudanças significativas? Houve resultados concretos? Parece que não.

No restante do discurso, Tancredo aborda questões familiares a qualquer época: a máquina administrativa cara e obsoleta, a recuperação da cultura, o aumento das escolas, o combate à corrupção, as exigências salariais da PM e do Judiciário. Em Belo Horizonte, por exemplo, as reclamações de 1983 já mencionavam as calamidades provocadas pelas chuvas e o trânsito caótico. Imagine o que aquelas pessoas pensariam se vissem o trânsito de hoje!

Há no discurso uma emoção palpável, mas falta alma. São palavras bonitas que, ao serem retiradas, não deixam lacuna. Isso é o que nos tornamos? Um povo emocionado, mas sem alma?

“Conhecida é a nossa tolerância, elogiada é a nossa disposição para o diálogo e a conciliação”, dizia Tancredo. Contudo, tolerância e diálogo não são virtudes quando os resultados são negativos para o povo. Após décadas de retrocessos, é hora de os mineiros se levantarem, de serem intolerantes com a injustiça, intransigentes na defesa de seus direitos, ensandecidos de bravura para proteger a dignidade de Minas e da Pátria.

Porque Minas Gerais não é apenas um estado; é um pequeno Brasil dentro do Brasil. E o que acontece aqui ecoa por toda a nação. Como disse Tancredo, “para nós, o amor a Minas é o amor ao Brasil.”