“Edificaram os altos de Tofete, no vale de Ben‑Hinom, para queimar seus filhos e suas filhas no fogo – coisa que Eu jamais ordenei, nem Me passou pela mente.” (Jr 7,31).

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Sobre esse mesmo versículo, comenta Rashi: “Chama‑se Tofete porque se tocavam tambores (tôph) para que o pai não ouvisse o clamor da criança enquanto era queimada.”

A imagem é brutal: tambores estrondosos abafavam o choro das crianças oferecidas a Moloque, permitindo que o sacrifício prosseguisse sem que os pais “ouvissem” sua própria consciência. Hoje não erguemos estátuas de bronze aquecidas, mas a lógica permanece. As batidas que inundam rádios, fones e salas de aula funcionam como novos tambores: encobrem o clamor de uma infância sacrificada à pornificação precoce, à glamourização do crime e ao culto do prazer imediato.

Não basta culpar a escola; os pais também colocam fones de ouvido litúrgicos em seus filhos, oferecendo‑lhes o lixo sonoro da sociedade, letras que hiper‑sexualizam, que banalizam a violência, que trocam imaginação por pulsão. Assim como em Topheth o problema era familiar, cultual e nacional ao mesmo tempo, a decadência musical de hoje é responsabilidade compartilhada: professores, plataformas, gravadoras e lares orbitam a mesma fogueira.

A música, primeiro instrumento de ordenação coletiva, converteu‑se em trilha de desordem. O que é a música, senão um padrão vibratório que expressa o estado de espírito de uma alma, ou, mais profundamente, o espírito de uma época? Ao ouvirmos atentamente o que ecoa nas vozes e nos ritmos atuais, percebemos que a música tornou‑se o reflexo fiel da interioridade do nosso tempo.

A música brasileira, em sua quase totalidade, tem convocado o homem à sua face mais instintiva. Pouco importa o gênero; sertanejo, rap, funk, rock, pagode, reggae, todos parecem convergir para uma estética do corpo, da excitação, do desejo imediato. Há uma insistente apelação aos sentidos, especialmente ao sexual, como se estivéssemos presos ao eterno retorno do mesmo, sob novas batidas e disfarces.

A música é uma linguagem sutil, mas poderosa. Ela pode rebaixar a consciência de uma sociedade ou elevá‑la ao sublime. Seu ritmo e vibração são convites. Convites à ordem ou ao caos. Tanto quem compõe quanto quem escuta se encontram afetados; ambos são atravessados por uma energia que, em vez de harmonizar, hoje frequentemente gera dissonância. Esta dissonância não é apenas sonora, é espiritual, social, moral.

A arte musical sempre teve o poder de formar o caráter do homem, de estruturar uma sociedade, de oferecer direção onde há desorientação. Ela é, talvez, o mais eficaz dos instrumentos de ordenação coletiva. Como afirmou Platão: “O nível de um Estado pode ser medido pela música que seu governo oferece ao povo.” Não se trata de mera estética, mas de engenharia espiritual.

A música é, portanto, uma via, uma estrada que pode conduzir à redenção em um tempo de ruína cultural. Por isso, o filósofo Roger Scruton dizia que todo aquele que se interessa pelo bem da humanidade deveria também contribuir para a elevação do gosto musical. A arte sensível é uma ponte para o sensato. A harmonia musical é, em essência, um chamado à harmonia interior.

Vejamos alguns exemplos contemporâneos:

Oruam, figura do funk atual, em entrevista a Roberto Cabrini, declarou valorizar a família e se posicionar contra o crime e o tráfico de drogas. Contudo, em suas letras exalta o sexo descompromissado, endeusa o crime e retrata criminosos como heróis involuntários, vítimas da opressão social. “[…] Bandido que é bandido é sempre respeitado […]”, diz ele – e suas palavras ecoam entre ouvidos infantis, moldando imaginários frágeis. Que tipo de consciência essa estética está formando?

Zé Felipe, cantor de forró‑funk, celebra a simplicidade da vida familiar em suas redes sociais. Entretanto, suas músicas contam outra história: exaltam a pornografia, celebram a traição e a sensualidade vulgarizada. “[…] Roça, roça em mim / Tira o chapéu e a bota / E me bota gostosin […]”, versos que ilustram a dualidade entre discurso e prática.

Este texto, porém, não se propõe como crítica pessoal a qualquer artista. Basta observar a lista das músicas mais ouvidas no Spotify brasileiro para perceber que o conteúdo é, com poucas variações, o mesmo. O ritmo pode mudar, o nome do artista também, mas a mensagem se mantém.

O desejo pelo sexo, como aqui simbolicamente posto, é mais do que um apetite estético. Ele tornou‑se um vício, uma forma de servidão moral inculcada desde a infância. A chamada “liberdade sexual” é hoje, ironicamente, uma ferramenta de controle social. Enquanto as massas se embriagam de excitação, uma minoria se alimenta disso, e não me refiro aos cantores, mas ao sistema político que compreende, há muito, o poder de manipular paixões.

“Se o universo é uma máquina cuja força primordial é a gravidade, e a sociedade uma máquina movida pelo interesse próprio, o homem, dessacralizado, torna‑se uma engrenagem que funciona a partir da paixão como combustível. Daí, controlar as paixões é controlar os homens.” (Libido Dominandi)

A melhor forma de dominar um povo é fazê‑lo sem que perceba estar sendo dominado. E a maneira mais eficaz para isso é manipular suas paixões, pois o homem tende a se identificar com elas. Ao defendê‑las, ele crê estar defendendo sua liberdade, uma liberdade muitas vezes confundida com o direito ilimitado de realizar desejos. Poucos compreendem o quanto esses desejos podem ser moldados desde fora, com precisão quase matemática.

Não se trata aqui de censura, nem de nostalgia moralista. O ruído sempre existirá. O que está em questão é o despertar: o convite a que cada um refine sua escuta, apure seu gosto, perceba o que a música está semeando dentro de si. A arte, ainda que aparentemente desconectada da política, possui consequências profundas na estrutura do Estado. A primeira arte, a música, continua sendo uma das mais silenciosas, e potentes, forças moldadoras da civilização.