Bahia não chegou. Pulsou.

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Como uma arritmia que interrompe o silêncio de um corpo prestes a morrer.

Senti sua presença como se escutasse os batimentos de um tempo que não volta.

Veio firme nos passos, acelerado como festa, mas com a fala arrastada, entre a saudade e a

censura, entre o berro e o beijo.

— Tu vai morrer, então… — disse ele. Sem barulho. Sem anúncio.

Como quem já cansou de avisar.

Me olhou como quem encara uma fotografia antiga: com ternura, sim. Mas sem ilusão.

Não havia raiva.

Apenas aquele tipo de tristeza que não grita, mas pesa.

Que se instala no peito e fica.

— Eu devia ter sabido, Brasil…

— Faz tempo que tu não me vê. Nem me visita. Nem me escuta.

— Faz tempo que tu passou reto por mim, como se eu fosse só passado.

— Não é isso, Bahia…

— É que eu me perdi.

— E quando a gente se perde, até voltar o olhar pra dentro parece errado.

Ele respirou fundo. Me atravessou com um olhar de quem já sabia.

— E eu era tua casa.

— Tu nasceu a partir de mim. Teus primeiros passos foram nas minhas veias.— Teus primeiros erros também.

— Tu lembra?

— Lembro de tudo…

— E talvez por isso eu tenha te silenciado.

— Silenciou porque sabia.

— Sabia que eu era tua lembrança mais viva.

— E viva demais pra um país que preferiu esquecer.

Ele falava devagar, escolhendo as palavras como quem escolhe flores num velório.

Sabia que cada uma podia doer, e mesmo assim, falava.

Não pra ferir.

Mas pra lembrar.

— Eu vim só pra isso, Brasil.

— Pra que tu soubesse, antes de sumir de vez, que ainda tem pedaços teus que resistem.

— Mesmo que tu tenha deixado pra trás.

— Eu ainda tô aqui, lutando pra manter vivo o teu corpo morto.

— Obrigado.

— Não agradece.

— Lembra.

— Já basta.

E então ele se virou, não.

Ele não se virou.

Saiu como chegou: inteiro, denso, insubstituível.

Levou com ele a parte de mim que ainda era começo.

A Bahia foi meu primeiro batimento.

E agora, talvez tenha sido o último.